Quem era Argus Filch
Entre fantasmas, professores lendários e alunos extraordinários, Argus Filch sempre pareceu deslocado em Hogwarts. Ele não possuía varinha, não realizava feitiços e não participava das grandes decisões. Ainda assim, estava presente em quase todos os corredores, sempre observando, sempre reclamando, sempre à margem.
Para muitos leitores, Filch é apenas o zelador rabugento que odeia estudantes. No entanto, por trás de seu olhar amargo existe um personagem profundamente marcado pela exclusão, pela frustração e por uma necessidade silenciosa de pertencimento.
Argus Filch não é apenas um alívio cômico. Ele é um retrato doloroso de alguém que vive cercado por um mundo ao qual nunca pôde realmente pertencer. E, ao observarmos sua trajetória dentro dos livros, percebemos que sua história é muito mais triste do que parece.
Quem foi Argus Filch e sua origem no mundo da história
Argus Filch nasceu sem habilidades mágicas, apesar de pertencer ao mundo bruxo. Ele é um aborto, termo usado para designar pessoas nascidas de famílias mágicas que não desenvolveram poderes.
Essa condição definiu toda a sua vida. Desde cedo, Filch cresceu cercado por pessoas que faziam naturalmente aquilo que ele jamais conseguiria. Enquanto outros aprendiam feitiços, ele aprendia a observar. Enquanto outros eram elogiados por seu talento, ele era lembrado por sua limitação.
Quando passou a trabalhar em Hogwarts, Filch não entrou como igual. Ele entrou como alguém que servia em um espaço que nunca o reconheceu como pertencente. Sua função de zelador, embora essencial, reforçava diariamente sua posição inferior dentro da hierarquia mágica.
Essa origem explica muito de seu comportamento. Filch não odeia apenas bagunça. Ele odeia o lembrete constante de que vive em um mundo que nunca foi feito para ele.
O papel de Argus Filch na história
Narrativamente, Filch representa o contraste entre magia e exclusão. Ele é o único adulto fixo em Hogwarts que não pode lançar feitiços. Isso o transforma em um símbolo silencioso de desigualdade dentro do próprio mundo mágico.
Em A Pedra Filosofal, Filch aparece como vigilante dos corredores, sempre tentando punir alunos por pequenas infrações. Já ali, sua obsessão por regras e castigos revela mais sobre ele do que sobre os estudantes.
Em A Câmara Secreta, sua relação com a gata Madame Nora se torna central quando o basilisco petrifica ela. O desespero de Filch naquele momento revela o quanto ela era seu único vínculo afetivo real. Para ele, a escola inteira poderia odiá-lo, mas Nora era tudo o que lhe restava.
Ao longo da saga, Filch funciona como lembrança constante de que Hogwarts não é apenas um lugar de sonhos. Também é um lugar de frustrações acumuladas.
A evolução de Argus Filch ao longo da história
Filch não passa por uma transformação redentora tradicional. Ele não se torna mais gentil, nem mais compreensivo. No entanto, sua trajetória se aprofunda emocionalmente conforme os livros avançam.
No início, ele é apenas o zelador irritado. Com o tempo, passa a ser visto como alguém que vive em permanente estado de humilhação silenciosa.
Em A Ordem da Fênix, sua aliança com Umbridge revela muito sobre sua personalidade. Filch não apoia Umbridge por convicção política, mas porque ela lhe dá poder. Pela primeira vez, alguém o autoriza a punir, vigiar e controlar. Isso o faz sentir, ainda que temporariamente, parte da autoridade.
No entanto, essa fase não o torna feliz. Apenas o torna mais amargo. Quando Umbridge cai, Filch retorna à sua posição original, ainda mais consciente de sua insignificância.
Em As Relíquias da Morte, ele continua em Hogwarts sob o regime dos Carrow, novamente associado a punições cruéis. No entanto, quando a Batalha de Hogwarts começa, Filch não luta. Ele apenas protege Madame Nora. Esse gesto, simples e silencioso, revela sua verdadeira prioridade.
Sua evolução não é de redenção, mas de revelação. Ele nunca mudou, mas o leitor passou a enxergá-lo melhor.
Relações e experiências que moldaram Argus Filch
A relação mais importante da vida de Filch é com Madame Nora. Ela não é apenas um animal de estimação. Ela é sua família, sua companhia e seu único afeto verdadeiro. Quando ferem ela, Filch reage como alguém que perdeu tudo.
Com os alunos, sua relação é marcada por ressentimento. Ele os vê como lembrança viva daquilo que ele nunca foi. Cada feitiço lançado por um estudante é, para ele, uma confirmação de sua exclusão.
Com os professores, Filch mantém uma relação de subordinação desconfortável. Ele os respeita, mas também os inveja. Sua admiração é misturada com amargura.
Com Dumbledore, sua relação é silenciosa e distante. Dumbledore nunca o humilha, mas também nunca o eleva. Isso mantém Filch preso em uma posição de eterna invisibilidade.
A experiência de tentar estudar magia por correspondência, revelada em A Câmara Secreta, é um dos momentos mais tristes de sua trajetória. Filch ainda acredita, mesmo adulto, que talvez possa mudar sua condição. Quando expõem isso, ele sente vergonha profunda.
Essa tentativa revela que, no fundo, Filch nunca deixou de desejar pertencer.
As principais características que definem Argus Filch
Argus Filch é amargo, ressentido e rígido. No entanto, também é profundamente solitário. Sua dureza é uma armadura, não uma essência.
Ele é extremamente disciplinado, obcecado por limpeza, ordem e regras. Para ele, controlar o ambiente é uma forma de compensar aquilo que nunca pôde controlar em si mesmo.
Filch é emocionalmente dependente de sua gata, o que demonstra sua necessidade desesperada de afeto.
Ele também é orgulhoso. Mesmo sendo tratado como inferior, recusa-se a demonstrar fraqueza publicamente.
Ao mesmo tempo, é inseguro. Cada riso dos alunos o fere mais do que ele jamais admitiria.
Temas e significados representados por Argus Filch
Argus Filch representa a exclusão dentro do próprio mundo mágico. Ele mostra que nem todos os nascidos nesse universo têm acesso às mesmas oportunidades.
Ele também simboliza o ressentimento social. Sua história reflete pessoas que, ao serem constantemente rejeitadas, transformam dor em hostilidade.
Outro tema forte é o da identidade frustrada. Filch não sabe quem é sem a magia. Sua função em Hogwarts é tudo o que lhe resta.
Além disso, ele representa o perigo do poder dado a quem nunca teve voz. Quando recebe autoridade, ele não busca justiça, mas vingança.
Por fim, Filch simboliza a solidão dos invisíveis. Ele está sempre presente, mas nunca verdadeiramente visto.
Curiosidades e aspectos menos evidentes sobre Argus Filch
Poucos leitores percebem que Filch é um dos personagens mais consistentes da saga. Ele nunca trai sua essência. Ele não evolui porque a própria história nunca lhe oferece espaço para isso.
Outro detalhe importante é que sua tentativa de aprender magia por correspondência mostra que ele não desistiu de si mesmo, apenas aprendeu a esconder suas esperanças.
Além disso, Filch jamais abandona Hogwarts, mesmo sendo constantemente humilhado. Isso revela que, apesar de tudo, ele ama aquele lugar, ainda que ele nunca o tenha amado de volta.
Sua obsessão por punições não nasce do ódio aos alunos, mas do desejo de ser respeitado.
Conclusão
Argus Filch é um dos personagens mais tristes e mal compreendidos de Harry Potter. Ele não é apenas um homem ranzinza. Ele é alguém que viveu a vida inteira tentando pertencer a um mundo que nunca o aceitou.
Sua história nos lembra que nem todos os vilões são ameaças. Alguns são apenas pessoas quebradas por dentro.
Filch não escolheu ser aborto. Não escolheu ser excluído. Não escolheu ser esquecido. Ele apenas aprendeu a sobreviver da única forma que conhecia.
No fim, Argus Filch permanece caminhando pelos corredores de Hogwarts, não como um guardião da ordem, mas como um lembrete silencioso de que até mesmo em mundos mágicos, existem pessoas que nunca puderam ser mágicas.

